segunda-feira, 23 de março de 2009

O Brasil e a Meritocracia

Na minha opinião uma das questões mais lamentáveis presentes na cultura brasileira é a dificuldade de aceitação do conceito de meritocracia.

Pra quem não é familiar com a palavra, segue descrição da Wikipedia:

Meritocracia (do latim mereo, merecer, obter) é a forma de governo baseado no mérito. As posições hierárquicas são conquistadas, em tese, com base no merecimento e há uma predominância de valores associados à educação e à competência.

Talvez pela nossa colonização católica que não lidava bem com o conceito de sucesso e premiação (a menos que fosse a espiritual concedida pela Igreja), ou então quem sabe pelo histórico de burocracia intrínseca aos sucessivos governos ou até pelo famoso "jeitinho brasileiro" que leva as pessoas a procurarem sempre a saída mais fácil (e via de regra ilícita) para os problemas, o fato é que o mérito sempre é um dos últimos fatores a ser considerado para efeito de mensuração de sucesso, reconhecimento e premiação em nosso país.

O empresário bem sucedido deve ter roubado alguém, o universitário de sucesso teve melhores condições, o pesquisador renomado teve sorte. Ou seja, sempre há alguma justificativa que desqualifique o esforço, a abdicação, o investimento de tempo, o estudo, em prol das justificativas históricas e mais fáceis de serem aceitas pelo público em geral.

O Brasil tem dificuldade de copiar o que é bom mas que vem de fora. Nas empresas (berços de importantes iniciativas de meritocracia) isto é feito de forma recorrente e ajuda muito. É conhecido no jargão corporativo por benchmarking: (pegando ajuda da Wikipedia novamente)

Benchmarking é a busca das melhores práticas na indústria que conduzem ao desempenho superior. É visto como um processo positivo e pró-ativo por meio do qual uma empresa examina como outra realiza uma função específica a fim de melhorar como realizar a mesma ou uma função semelhante. O processo de comparação do desempenho entre dois ou mais sistemas é chamado de benchmarking, e as cargas usadas são chamadas de benchmark.

Nesse aspecto poderíamos copiar os EUA, que diferentemente do Brasil tem a meritocracia com um de seus princípios mais fundamentais. Não é à toa que anualmente recrutam e recebem milhares de estudantes de diversos países em suas instituições pois esses alunos tiveram o mérito de demonstrar suas qualidades e de alguma forma merecer aquela vaga. Certamente não é apenas por esse fator que os EUA tem uma posição de destaque no mundo e nem tudo o que é feito por lá deve ser copiado (a crise atual ratifica isso) porém diversas pesquisas e artigos já demonstraram que a cultura de meritocracia estimula a competitividade, a produtividade e principalmente a inovação; três fatores que o Brasil não deveria abrir mão na atual conjuntura da globalização mundial.

Uma pena, no entanto, que ao abrir qualquer revista ou jornal nos últimos tempos apareçam exemplos que mostram ideias diametralmente opostas à da meritocracia. Vejam alguns:

(1) tramita proposta no Congresso para se criarem cotas para negros nas Universidades Federais, um claro descompasso entre atacar a causa de um problema estrutural de educação (porém complexo de corrigir) e a consequência de que só alunos provenientes do ensino privado conseguem entrar nessas instituições. Será que é essa a saída que garante produtividade e inovação ao país ?

(2) aproximadamente 200 mil cargos de confiança (não concursados) foram criados nos anos de governo Lula. Por que dar cargos com salários de R$ 5 mil/mês pra quem não tem atributos mínimos que garantam a melhor aplicação e uso do dinheiro público. Isso traz competitividade ao país ?

(3) 1.500 professores tiraram nota zero na prova de avaliação aplicada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo em Dezembro do ano passado. Erraram todas as 25 perguntas a que foram submetidos mas o sindicato da categoria conseguiu na Justiça que todos continuem dando aulas em 2009 (ver coluna J.R. Guzzo na Veja de 4 de Março de 2009). Será que é por isso que os alunos das escolas públicas não entram nas Universidades ?

Lembro que estudei em uma escola que ao longo dos três anos de colegial publicava mensalmente as notas de todos os alunos e comparava quem estava abaixo ou acima da média. Muitas vezes achava aquilo estranho mas acabei me acostumando. Semana passada na empresa passei um dia inteiro fazendo isso com meus funcionários e de outros colegas (ver último post do blog). Queiram ou não a vida aí fora é assim, premia os mais preparados e é mais dura com quem não corre atrás. Isso gera conflitos positivos e principalmente competitividade para o país.

E país competitivo exporta, cresce, cria empregos, aumenta arrecadação....Pena que isso ainda esteja tão longe de nossa realidade, principalmente a do governo.

MERITOCRACIA é a regra do jogo.

PS: há algumas iniciativas interessantes sendo conduzidas por governos estaduais (MG por exemplo) em conjunto com instituições privadas aplicando conceitos de metas, plano de trabalho, remuneração variável, qualidade na prestação dos serviços, etc nas administrações públicas. É um alento e uma esperança para o futuro.

3 comentários:

  1. Gostei do texto.
    Me lembrou de um livro da Livia Barbosa q li na faculdade: Igualdade e meritocracia. Ela compara as sociedades brasileira, japonesa e americana no que diz respeito as responsabilidades individuais e as recompensas.. leitura muito interessante.

    Bjs

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  2. O texto é razoável, a conclusão é que me parece encomendada... não acredito que alguém conclua que professores que em tese se submeteram a um concurso para lecionar... sejam de uma hora para outra submetidos a uma prova, com sabe lá que conteúdos... e reprovados com sabe lá que critérios de correção... devam deixar de exercer suas funções.Quem determina esta seleção? Deus?

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